Fraude e privilégio no ensino superior dos Estados Unidos com o documentário "Educação Americana”
- Julia Portilho

- 10 de abr. de 2021
- 5 min de leitura

“Somos uma empresa de 290 milhões de minha propriedade com mil funcionários nos EUA e 280 no exterior. Ajudamos as famílias mais ricas dos EUA a mandar os filhos à faculdade. Trabalhamos com os proprietários da NBA e da NFL. Trabalhos com todos. Essas famílias querem garantias, não querem se arriscar, querem ter a certeza de entrar em certas universidades. Fiz 761 transações de ‘portas laterais’. ‘Porta da frente” significa entrar sozinho. ‘Porta dos fundos’ requer uma doação de um valor dez vezes maior. Criei essa porta lateral pois não há garantia com a porta dos fundos, pois só lhe farão uma segunda análise. Minhas famílias querem uma garantia.”
Trecho de uma ligação telefônica entre Rick Singer e o advogado de Wall Street, Gordon Caplan, sobre seu esquema de fraude
A fala pertence a Rick Singer, consultor universitário e orquestrador do maior esquema de compra de vagas em universidades norte-americanas por famílias ricas e famosas. O documentário “Educação Americana: Fraude e Privilégio”, lançado pela Netflix no mês de março, retrata o escândalo de 2019 que acusou 50 pessoas pelo mesmo crime, algo inédito até então. Entre os envolvidos estão diversas personalidades poderosas do país, como CEOs de Wall Street e Califórnia, executivos imobiliários e atores de Hollywood.
Construído a partir da recriação de material coletado de grampos telefônicos, o documentário expõe a dificuldade de acesso ao ensino superior nos Estados Unidos e as injustiças no seu sistema de admissões. É justamente das rachaduras desse processo que emerge a corrupção e o oportunismo que perpetuam o privilégio branco e o elitismo na sociedade.
O método de entrada em universidades americanas é mais rigoroso que o brasileiro. A avaliação engloba todo o histórico acadêmico de seus candidatos, exigindo notas perfeitas e atividades extracurriculares quase impossíveis de serem realizadas devido a carga horária dos estudantes. Além disso, demanda também um investimento financeiro altíssimo, o que motiva as famílias a iniciarem uma poupança logo após o nascimento da criança.
A admissão por mérito existe, porém é rara. O fato é que o acesso, sobretudo dos cotistas e grupos minoritários, como os negros e latinos, tem se tornado cada vez mais complicado. A culpa seria da classificação realizada pela U.S.News desde os anos 80, tendo como base um único critério: o prestígio. A lógica é que, quanto mais seletiva ela parece, maior sua posição no ranking. Isso tornou instituições de elite, como as da Ivy League, praticamente inacessíveis, já que todas querem garantir a melhor posição possível.
O ingresso por meio do esporte é então disputado por milhares de pessoas ao redor do país, visto como um modo de ascensão social. No entanto, as universidades tendem a valorizar atividades ligadas às classes mais privilegiadas, como vela e esgrima, as quais muitos estudantes nunca tiveram sequer a chance de experimentar. A consultora educacional independente Barbara Kalmus conta no longa que não se trata da busca por uma boa qualidade de ensino, e sim pelo status e o direito de ostentar.
Essa realidade causa o agravamento da ansiedade nos jovens. Priscilla Sands, diretora escolar de Marlborough, acredita que os alunos atualmente estão muito mais obcecados pela faculdade. O ideário de que existem as opções “certas” e “erradas” faz com que todos desejem ingressar nas universidades tradicionais. A manutenção dos privilégios destes lugares custa a autoestima, a confiança e a saúde mental de milhares de adolescentes todos os anos.
O esquema de Singer e as faces do privilégio
Akill Bello, especialista em testes, diz que os pais com recursos tentam sobressair seus filhos a essa massa com receio de que pudessem não ser notados. Para isso, “injetam dinheiro ao problema e encontram alguém que possa ajudar seus filhos de forma independente com o processo”. É assim que surgem consultores universitários independentes como Rick Singer.
E foi dessa lógica que Singer usou para montar sua rede de colaboradores. Ele identificou e subornou figuras estratégicas dentro das universidades, como Donna Heil, diretora atlética associada sênior da University of Southern California (USC), que recebia 20 mil dólares por mês em troca de seus serviços. Sua função era a de intermediar o departamento de admissões e o departamento de atletismo, favorecendo os candidatos indicados por Rick.
Entre 2011 e 2018, pais financeiramente avantajados pagaram aproximadamente 25 milhões em propina a treinadores e administradores das universidades para garantir as “portas laterais” de Singer. A quantia era transferida como uma falsa doação à fundação do consultor, que repassava o dinheiro a seus contatos. O esquema consistia na admissão de falsos atletas nos programas de esporte, focando os menos visados, como vela e polo aquático.
A trama envolvia, por exemplo, sessões de fotos ensaiadas e a manipulação de imagens no Photoshop para que os estudantes fingissem ser praticantes da atividade, mesmo que não constasse como tal no ensino médio. Contudo, o processo de falsificação das provas das faculdades era bem mais elaborado e envolvia atestados médicos adulterados e a troca de gabaritos.
Mark Ridell era responsável por refazer a prova dos estudantes que, em algumas das vezes, nem tinham consciência da fraude em que os pais estavam envolvidos e se tornavam peões da própria família. O grande questionamento surge dessa perspectiva: até que ponto as pessoas são capazes de ir em troca de mais status e prestígio? Akill faz uma reflexão parecida no documentário: “ ‘Por quanto dinheiro você comprometeria sua ética?’ Para mim, sempre se trata do fato de os ricos terem capacidade e, neste caso, os meios e a disposição, de tirar vantagem dessas coisas”.

A operação Varsity Blues, como ficou conhecida, revela a falta de caráter e a exploração dos ricos de seus privilégios. O conceito de meritocracia causa revolta quando é escancarado que essas pessoas escolheram trapacear mesmo tendo sido regadas de recursos e oportunidades durante toda a vida. A vantagem já era deles e ainda assim escolheram roubar a chance e os sonhos de milhares de adolescentes. Enquanto jovens brancos e ricos perpetuam sua homogenia na sociedade, aqueles que estão à margem se veem sem qualquer perspectiva de futuro, afinal as poderosas “universidades” os dizem que não são bons o suficientes para fazer parte de seu legado.
O escândalo mostrou a podridão presente nas instituições de ensino superior e como são culpadas por dar pretexto a golpes como esse. As sentenças proferidas aos envolvidos no esquema te fazem questionar a (in)justiça do sistema, como no caso da atriz de Full House, Lori Loughlin, e seu marido, o estilista Mossimo Giannulli, multados em 2 milhões de dólares e condenados a dois e cinco meses de prisão, respectivamente. A quantia não representa quase nada em suas contas bancárias. Olivia Jade, filha do casal, é a personificação da ganância e o quanto ter poder se torna viciante.
Ser milionária, influencer do Youtube e parceira de marcas como a Sephora e Princess Polly não foi o suficiente para Olivia. A garota entrou na USC como falsa timoneira quando, no ensino médio, gravava vídeos dizendo o quanto odiava estudar e ameaçava abandonar o colégio. A hipocrisia de todos na fraude de Rick Singer pode ser facilmente notada através da fala da adolescente (ao matar aula em casa certo dia), sobre o quanto era “abençoada”, aos milhares de jovens que a viam como um exemplo e desejavam ter as mesmas oportunidades que ela e, claramente, não tinham:
"Lembrem-se que temos sorte por poder estudar e que muitas pessoas adorariam ter uma boa formação ou qualquer formação. Por mais que eu odeie isso, continuo odiando, sou grata por poder estudar. Embora odeie isso.”



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